[BIBLIOGRAFIA]

O Despertar Selvagem do Azul Cavalo Domesticadocapa_DESPERTAR-SELVAGEM

(Multifoco, 1ª edição, Rio de Janeiro/RJ, 2018)

O DESPERTAR SELVAGEM DO AZUL CAVALO DOMESTICADO

[por Leopoldo Comitti]

Francisco Gomes inicia seu livro O Despertar Selvagem do Azul Cavalo Domesticado com a invocação a EO, ou, como compreendemos nós,“Eos”, a aurora, a Deusa do amanhecer, irmã do Sol e da Lua, cuja função era proporcionar a vinda e ida do Sol. Nesses primeiros versos, estabelece sua poética, que será desenvolvida em capítulos que evocam a passagem da semana, em Língua Latina, demonstrando um conhecimento da cultura clássica, capaz de fazer seus versos hodiernos dialogarem com a tradição.

Em princípio, a obra sugere até mesmo algo de narrativo, mas esta seria uma leitura equivocada, uma vez que seus versos, ao serem lidos, ficam ressoando até o final da obra, num efeito polifônico, que recupera o conceito de verso harmônico de Mário de Andrade. No entanto, ao contrário do despojamento estético do modernista, Gomes nos sugere um rigor e, ao mesmo tempo uma ousadia, que lembram Elizabeth Bishop.

O Despertar Selvagem do Azul Cavalo Domesticado é, sem dúvida, uma obra de um poeta já completo, capaz de nos levar por uma viagem poética solar, complexa e fascinante. Apesar da semana sugerida pela estrutura da obra, ela nos convida a ler tudo de súbito, pela maestria que os versos demonstram.

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A ANTI-EPOPEIA DE FRANCISCO GOMES EM SEU LIVRO DE POEMAS “O DESPERTAR SELVAGEM DO AZUL CAVALO DOMESTICADO”

[por Regis de Moraes Marinho]

“O Despertar Selvagem do Azul Cavalo Domesticado”, livro-poema de Francisco Gomes, afigura-se-me como uma antiepopeia do século XXI.

Em oito atos, que vão da aurora, com o “despertar selvagem” desse “azul cavalo”, metáfora e “alter ego” do poeta, passando por uma galopada alucinada e alucinante pelas ruas da cidade, até chegar às escadarias da Igreja São Benedito, no centro de Teresina, o “azul cavalo”, em constante mutação, rompe os grilhões e arreios da “domesticação” social e parte rumo ao absoluto e ao infinito, através de seu “percurso-verbo”.

O poeta, então, conta-se entre os “fugitivos” irredentos, com seus “cascos metralhando o horizonte”. Desfazendo-se das circunstâncias que o fizeram “melífluo” e “domesticado”, o poeta-azul-cavalo vagueia no mundo, liberto de preconceitos, refletindo “sóis indecisos” e “sexos de granito”, pelas “ruas vazias” que “absurdam existências”.

Nesse passo, transitam pelos versos do livro-poema de Francisco Gomes todos esses seres que, como no verso futurista de Álvaro de Campos, compõem essa “fauna maravilhosa do fundo do mar da vida”: travestis, bêbados, putas, drogados, depressivos insones e quejandos.

Nem por isso, entretanto, o poeta quererá voltar à sua pseudozona de conforto. Ele quer continuar vagueando na crua realidade das vidas sem perspectiva, até porque “a calmaria traz desassossego” e não há como olvidar que a “vida-estratagema” nos quer “domesticados”, impondo-nos “códigos distorcidos”.

Há que abrir, pois, os olhos para a “excêntrica claridade”, fitando “a enferrujada velhice/de tantos séculos/que nos arrasa”.

E o “azul cavalo”, ora volvendo ao seu estado de natureza selvagem, segue o seu percurso na madrugada, com uma sede que não é de água, mas do absoluto, como “sobrevivente do século” e “michê de mitos”.

Ele está no “limbo do asfalto”, sob a “penumbra do sono celeste”, mas continua a percorrer o seu “itinerário instintivo”, até a chegada do “apocalíptico dia”.

Em nova noite, “a cidade clama e reclama”, enquanto o niilismo povoa “cada esquina vazia”. E o “azul cavalo” sente o peso da “solidão na estrada”, onde “ninguém leva nada” e “os bípedes tremem na base”. A cidade reclama e o poeta, com os seus grilos na cuca, reclama com a cidade…

Assim, tudo se prepara e conduz para o clímax da epifania alucinatória final, nas escadarias da Igreja São Benedito, onde as visões da carne, do osso, do sangue e do corpo se contrastam com uma religiosidade impositiva e domesticante. Com a alucinação epifânica, reafirma-se a condição humana natural – mediante um processo estilístico de confecção do poema que dialoga diretamente com a tradição mitológica greco-romana – e, portanto, essencialmente pagã e erótica, com os pés “plantados na terra”, sentindo “a alquimia da existência”.

Assumindo sua condição de “cheio de pecados”, o poeta indaga: “Como poderei ser religioso?” Ele pertence “ao rodopio diário das sensações…” Ele necessita, pois, despertar selvagemente do sono letárgico da domesticação, ainda que isso implique descobrir-se como “ser raro e solitário”, mas que consiga alcançar o “estado de graça” de expressar ideias, sensações e sentimentos, como os que nos acometem ao contemplarmos o “voo das garças”.

Eis, enfim, a antiepopeia do século XXI na logopeia poética que nos oferta Francisco Gomes, com extremo rigor estilístico e plena consciência de seu ofício de poeta como “antena da raça”, no sentido poundiano da expressão, alertando-nos para o que nos dizem os angustiados, “(à procura/da cura/do inexplicável)”, que religião alguma poderá lhes dar – senão a Poesia e seu cultivo diário – no Caos reinante atual.

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Face a Face ao Combate de Dentroface_a_face_ao_combate_de_dentro_de_francisco_gomes_196_1_20160323162035

(Kazuá, 1ª edição, São Paulo/SP, 2016)

A DICÇÃO POÉTICA DE FRANCISCO GOMES em “Face a face ao Combate de Dentro”

[por Dílson Lages Monteiro]

Poesia que usa os ritmos do corpo e da palavra poética para autoexplicar-se – e, autoexplicando-se, explora as sensações, angústias e prazeres do verbo e da pele.  Metalinguístico em sua essência e, sobretudo, sinestésico, o poeta piauiense Francisco Gomes, em seu terceiro livro de poesia, o longo poema-fragmento “Face a face ao combate de dentro” (Editora Kazuá – SP, 2016), faz do ofício da escritura poética, a partir de duas instâncias enunciativas, a experiência erótico-amorosa e o labor da construção do poema, o laboratório sentimental para a manifestação dos mais variados reflexos interiores.

A dicção de Gomes assinala-se, no plano temático-discursivo, pela imersão nos sentidos do tempo presente. Esse traço peculiar de sua poética já era percebido em seu segundo livro, “Aos ossos do ofício o ócio”, em cuja orelha destacou o crítico literário e professor aposentado da UFRJ Rogel Samuel: “O tempo é o seu balanço perene, o tempo e suas ciladas, os seus mapas, o tempo em fatias, tudo transitório (…) o tema de Francisco Gomes é a própria poesia, aceno ao sol, desvoar de pássaros, a poesia é a sua fratura do azul noturno, sua porta está sempre aberta para a significação”.

Seguindo a mesma perspectiva, trata-se toda a nova obra, por analogia, de metáfora para o amor erótico e para a criação literária. Nesse projeto de fusão dessas duas matrizes existenciais, abundam na dicção tensa de Gomes as sugestões imagéticas oriundas da ansiedade, dos abismos e vazios que tanto a vivência erótica quanto a escritura poemática geram – nos múltiplos graus de incertezas, mistérios e (in)satisfações.

O corpo, a pulsação instintiva da satisfação de viver e o sublime alívio para as dores do cotidiano. A palavra, refúgio, para que a voz lírica habite no exílio do verbo. Corpo e palavra unidos, inseparáveis, os instrumentos para superar os desafios ou tensões da convivência: “Sílaba por sílaba / golpeio a palavra / – de frente / recebo de volta o impacto / bem no fundo / do âmago / da mente.”

Lembra Lúcia Santaella que, na poesia, “os interstícios da palavra e da imagem visual e sonora sempre foram levados a níveis de engenhosidade surpreendentes”. A propósito, entre as muitas virtudes da dicção de Francisco Gomes, destaca-se a exploração imagético-visual do signo, a fim de alcançar os efeitos de sentido, a seu modo, peculiares à poesia pós-moderna de hoje. A dimensão plástica do léxico, aliada à colagem, dissolve-se em toda a obra em jogos de sinestesia agradáveis à imaginação.

No dizer de Adriano Lobão Aragão, Francisco Gomes constitui sua labuta autoral “na exploração plástica e não limitadora do léxico, na fragmentação das palavras, conferindo-lhes significados e autonomia formal”. O cerne de seus versos, pois, está na renovação lexical e na fuga da sintaxe comportada, de quem busca abrigar-se em seu “(…) eu / toldo”.

A poesia de Gomes é movimento que rompe “a artéria do segundo”, “num desespero que reabre asas / para a calmaria / muscular da resistência”. Sua linguagem é, por isso, telegráfica, reproduzindo, no verso, a velocidade da vida moderna, em seu constante, insaciável e infinito renovar-se. Busca o poeta a utopia da linguagem exata, em desvios que ressignificam o metapoema, em versos como “a mor / fina dor amenizada”, ou na exploração do vocabulário científico.

Em sua poética, o léxico da ciência vale mais pelo plano da expressão. Vale mais o seu teor fônico, ora acelerando ou retardando o ritmo com que se lê os versos, ora multiplicando as sensações da escritura literária ou do amor. A palavra é corpo, organismo vivo, reanimado por metonímias que a ele se reportam por meio de palavrascompostas que integram o exterior ao interior, coagulando tempos, ouvindo vazios, “no sabor amarelo / da saudade”.

Ler Francisco Gomes é suspender-se em imagens e ritmos bem particulares, que nos põem em contato com os estados superiores do sentimento – na materialidade do corpo: “Os números oxi / dando / voltas / na fuligem das horas /: re-tardamento da / áurea íris do espanto nos / quatro olhos que se olham / nus.”

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Aos Ossos do Ofício o ÓcioAos ossos do ofício o ócio - capa

(Penalux, 1ª edição, Guaratinguetá/SP, 2014)

AS PUPILAS INQUIETAS DO POETA Ou “no anil do voo dos olhos”

[por Rubervam Du Nascimento]

O que aqui está publicado foi escrito para olhos inquietos. O ritmo da poesia deste livro é ditado pelo olhar. No espaçamento da folha de papel, o que nos persegue é o latejar de pálpebras captando a forma dos poemas.

Olhos em completo desassossego, espichados em direção ao que se pensa escondido por trás de cada verso, mas que surge, multiplicado em claridade, à medida que rastreamos as sombras das palavras impressas nestas páginas.

O que o leitor acredita, digamos, obscuro, se relativiza quando partilhada a reelaborada memória, quando os seus pertencimentos, privilegiados por seu sentido principal, passam para a bagagem do leitor, quando o olhar do leitor reconhece a herança simbólica universal, exercitada pelo autor, tão cara ao aprendizado da poesia, de todos os tempos.

Daí a declaração de “um sofrer de flor despenteada”, que leva o leitor ao imaginário de um jardim em delírio de palavra, que ordena os princípios e fins da sua criação, um jardim de “flores do mal”, de contemplação e descobertas interiores- exteriores, urbanas, humanas, universais, em torno das quais toda linguagem poética contemporânea começou a fundar-se e desenvolveu-se.

Francisco Gomes, desde o primeiro livro, mas principalmente neste, optou pelo desafio da contemporaneidade, testando matrizes significativas, marginálias, leminskianas, torquateanas, vinicianas, amalgamadas em fortes estruturas de “tijolo, de argamassa, de concreto.”

Insisto, o leitor quer o mapa-múndi que levará aos mistérios desta poesia? Pois aceite arrancar dos olhos, não a venda, de compreensão comum, imaginação precária; mas o escuro total que inunda de nuvens sem brilho, as anunciadas chuvas de nosso campo seco de luz.

Se o leitor olhar bem o mapa de risco destes poemas, descobrirá a estrutura em que se apoia o discurso, propositadamente recortado do poeta, e chegará à isca da sua elaborada sintaxe.

Essa história de privilegiar o olhar na leitura poética, Bandeira já nos chamou a atenção desde o “Libertinagem”, ao nos colocar diante dos olhos de uma certa Tereza que “nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse.”

O autor deste livro nos alerta que, para a voz dos ouvidos chamar a atenção do leitor, precisa de “altofalantes”. Avisa que a audição, para perceber o instinto sonoro do silêncio, precisa de “não sei o quê”. Sem esse “não sei o quê” nenhum ruído resiste ao seu eco surdo.

Esta é uma poesia que resiste a simples ideia do barro que ao mesmo tempo cria e rói o esqueleto que recebea vestimenta de nossa voz, subjugada pela palidez doeco das coisas precárias que nos cercam.

Por isso pede ao leitor que coloque “anil do voo de nossos olhos” para acompanhar o brilho das cores que constroem o arco-íris ininterrupto de seu poema.

Desconfia que os demais sentidos, como o tato, cheiro, paladar, os recém-descobertos: equilíbrio e propriocepção; o primeiro, propulsor do conhecimento vestibular dos indivíduos, o outro, responsável pela recognição das peças que compõem o nosso corpo, de tanto se renderem às tensões cotidianas, às manipulações redutoras do engano, em suas variadas camuflagens, funcionam muito mal.

Afinal, nos metemos num labirinto sem qualquer destino para encontrar a saída possível. Ignorantes de nós mesmos, de cada parte que nos compõe; nos perdemos de nós mesmos, insensíveis ao que nos convida a olhar no olho do outro; esquecidos de tudo e de nada, diminuímos a capacidade de acionar a força que move nossos braços, nossos pés, nossos passos, claro, os nossos olhares.

O poeta aprendeu que, para plantar e colher inquietudes, romper “paredes”, “muros” e “abdômen”, que se acomodam ou fogem de nós, é prudente colocar em evidência o “olhar-bumerangue”, que a sua poesia nos oferece. Sabe que a palavra forma e de-forma a imagem (em atalho: desvendável lacuna) “para infinita necessidade de visitar o longínquo/sabor do invisível”.

Olhar inquieto significa muito mais do que olhar atento, significa qualquer coisa como adivinhar formas agregadas aos riscos do vento, correr na contramão em busca do que se acredita morto, mas está vivo, pronto para interferir com fios de especial matéria nos elos da corrente sujeita à fadiga.

Olhos capazes de colher artifícios do ócio de um ofício, “olhos sem anseios-cataratas”, olhos de mil novecentos e noventa e nove, plena demonstração de “ontens e agoras”.

Olhar de Narciso em duelo com o olho d’    água plantado em nossa fonte de dentro, reinaugurando mergulhos, em profundidade infinita, abissal.

Olhos que, pacientemente, “desvoam pássaros”, atraem o silêncio; identificam toques e cheiros no corpo da palavra em agonia silenciosa, capaz de levar até as últimas consequências os batimentos cardíacos do poema.

Olhos que remendam o azul, zombam dos sussurros da noite, esperam outro dia para amanhecer o poema nas pálpebras das palavras adormecidas.

Olhos em armadilha, carregados de mundo de poemas em escalas de significados surpreendentes, como muito bem expressa o poeta neste verso: “só sei de uma coisacausa:/sou faca cega riscando o pulso das palavras.”

É desse olhar de palavra tocando fogo no escuro que a poesia de nossos dias precisa para explodir o sol do deserto do leitor desacostumado com as provocações da arte e da beleza.

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Poemas Cuaze Sobre Poeziascapa - poemas cuaze sobre poezias

(FCMC, 1ª edição, Teresina/PI, 2011)

NA DANÇA DA POESIA…

[por Adriana Paula Rodrigues Silva]

Prefaciar um livro de poemas é tão complexo quanto procurar sua interpretação, porque se muitos são os tipos de leitores e o repertório que os envolvem, assim também diversas serão suas leituras interpretativas. Os poemas por si mesmos falam, autoprefaciam-se, com licença do termo inaudito. Eles falam por si, de si e daquele que os compôs: o poeta. Qualquer coisa que se diga de uma poesia será sempre menor do que aquilo que ela sugere em imagem e ritmo.

Fazer poesia é uma tarefa que se compraz no próprio ato de tecê-la, pois quem junta os fios da linguagem, na alquimia de transformar as palavras, que todos deveriam escrever poesias. Este sublime exercício eleva as almas e humaniza os seres.

Para o poeta gaúcho, para se fazer um poema é necessário “esperá-lo com paciência e silenciosamente como um gato. É preciso que lhe armemos ciladas: com rimas, que são seu alpiste; há poemas que só se deixam apanhar com isto. Outros que só ficam presos atrás das catorze grades de um soneto. É preciso esperá-lo com assonâncias e aliterações, para que ele cante. É preciso recebê-lo com ritmo, para que ele comece a dançar. E há poemas livres, imprevisíveis. Para esses é preciso inventar, na hora, armadilhas imprevistas”

Este conjunto de poemas vai seduzindo o leitor à medida que ele o ler. Trata de temas que são da condição humana, portanto, não possuem datas, tempos específicos. Cuida de todas as coisas que são de todos os tempos, por isso mesmo são sedutores. As imagens que os versos constroem se coadunam com o ritmo que possuem. E estas imagens, muitas vezes são tão sutis, que esquecemos que a sua matéria é a palavra.

Há quem diga que devemos nos aventurar nas leituras dos livros, penso, no entanto, como Quintana, que devemos ler poesia como quem acompanha um cortejo, lentamente, usufruindo cada palavra, cada vírgula, cada ponto, cada reticências, cada verso… Não como um aventureiro que, na agitação de suas conquistas, esquece-se de ver aquilo que está sutilmente encoberto.

Leiamos estes poemas sem a pretensão de analisá-los. Sejamos cooperadores das imagens que eles nos despertam e dos ritmos que nos levam a dançar a dança da poesia, da vida, da magia, da filosofia. Assim, desse modo, deixaremos suas páginas, ao final da leitura, com a estranha e agradável sensação de que fomos nós que fomos lidos.

 

¹QUINTANA, Mario. Da preguiça como método de trabalho. São Paulo: Globo, 200, p. 102 –103.

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